
Estou aqui hoje para fazer uma homenagem póstuma à Pietra e ao Pierre. Dois pequenos e frágeis seres que passaram por aqui e não conheceram outra coisa que não fosse o sofrimento causado pelas mãos do ser humano. Não conheceram o afeto, não souberam o que é ter um lar e um dono. Nasceram na rua, são os verdadeiros filhos do abandono. Nasceram de pais também abandonados na rua ao sofrimento ou de pais que possam até ter tido donos, mas donos que permitiram que suas crias fossem geradas por covardia de enfrentar (ou pagar ou procurar) por cirurgias de castração por acreditarem de forma ignorante que o ato equivaleria à mutilação. Não permitiram o que chamavam de `mutilação`, mas permitiram que os filhotes fossem mutilados ao serem cruelmente arrancados e jogados na rua, doados aleatoriamente a qualquer um.
Pietra, em seu primeiro cio, estava à beira de levar adiante este ciclo de abandono. A despeito da magreza absurda, de sua delicadeza típica de fêmea, da fragilidade e das dores no corpo provocadas por chutes e pedradas desferidos pelo ser humano, ainda tinha de conviver com filas de machos que a perseguiam para acasalar atraídos pelo odor de seu cio.
Pierre não era o único macho que cercava Pietra. E tinha de encontrar forças para vencer os concorrentes, enfrentando, além dos perigos da rua, o monstro da fome e o monstro ser humano, capaz das maiores covardias contra os cães que sujavam as ruas e deixavam marcas na consciência do ser humano que abandona, que maltrata, que fere, que mata, mas que não quer ser lembrado de seus atos pela presença onipresente de cães abandonados circulando pelas ruas da cidade, em frente às suas casas.
Pietra e Pierre, filhos do abandono e, como se não bastasse, filhos do preconceito. Explica-se: legítimos SRDs, ou seja, cães sem raça definida, ou em bom português, vira-latas, eram, a exemplo de outros tantos vira-latas Brasil afora, rejeitados, rechaçados pelo ser humano que esconde suas hipocrisias e defeitos atrás do status proporcionados por marcas, inclusive, marcas de cachorros, gatos e cavalos, bichos de estimação. Raças ganham projeção nas telas da TV e do cinema, nas páginas dos livros, e invadem lares de famílias que pagam fortunas a criadores para terem os exemplares famosos dentro de suas casas e quintais. E, com o tempo, perdem terreno e o afeto afetado por influências externas de seus donos, são largados à própria sorte, maltratados, abandonados nas ruas ou doados com a desculpa esfarrapada de que seus donos, cansados e de olho em outras novidades capazes de lhes garantir status perante à sociedade descartável, não têm condição de criá-los mais - um dos muitos requisitos básicos que deveriam ter sido pensados e avaliados lá no começo, logo que se trouxe o animal para a casa.
À vocês, Pietra e Pierre, que se deleitaram com o primeiro e último regalo de suas vidas, uma latinha de patê próprio para pets, sem sequer imaginarem que daí a poucas horas seriam sedados e adormeceriam para sempre. Â vocês que sequer nome tinham, chamados simplesmente de cachorros, e que nos instantes finais receberam nomes para preencher as fichas de cadastro na clínica veterinária: Pierre e Pietra - que, a princípio, era Nina. À vocês, o meu pedido de perdão por ter tomado uma decisão que se mostrava como única saída diante dos resultados dos exames e à minha total incapacidade de encontrar alguém disposto a cuidar de vocês de forma especial, segundo critérios indicados por veterinário, ao longo de toda a vida de vocês que poderia ser longa se não tivesse que ser abreviada. À vocês, vítimas de uma doença cujo tratamento não é reconhecido pelo Ministério da Saúde, a leishmaniose, certamente para que o Estado não tenha de assumir no orçamento os custos de mais uma vacina contra zoonose, a exemplo do que é feito quando são abertas as campanhas de vacinação anti-rábica.
À vocês, o meu sincero pedido de perdão e a minha despedida em forma de homenagem póstuma. Que no lugar onde vocês estejam agora despertados sejam respeitados como sequer um dia foram por aqui, na terra habitada por seres humanos. Fiz por vocês tudo que estava ao meu alcance e é com tristeza que reconheço minha falha, minha incompetência e minha incapacidade de evitar a partida tão breve de dois seres que poderiam ter tido vidas longas. Um dia a gente se encontra novamente.